domingo, 24 de junho de 2007

Leila Pinheiro



Gravado ao vivo em agosto/06 no Teatro SESC Pinheiros. São 23 canções e um texto da escritora Adélia Prado, além do video-clipe "Hoje" (Leila Pinheiro e Renato Russo), making of e galeria de fotos. A ambientação do show reproduz o estúdio da cantora, com paredes, estantes, fotos, tapetes e objetos, com Leila ao piano, André Vasconcellos (baixo elétrico), João Viana (bateria) e David Feldman (teclados). A poesia de Paulinho da Viola em "Nos Horizontes do mundo" abre o show, passando por Joao Donato, Guinga, Sueli Costa, Djavan, Dorival Caymmi e outros compositores..
Esqueça a campainha e o interfone. Também não bata na porta. Apenas entre e fique à vontade. Uma vez dentro, visite os detalhes, contemple os horizontes – sonoros, visuais, sensoriais - e, sobretudo, ouça a voz. Ao vivo, Leila Pinheiro recebe seus convidados literalmente em casa, embora em público.

É desta forma, na sua sala de estar – fielmente reproduzida no palco, com paredes, estantes, tapetes, fotos, objetos, flores -, que a cantora e compositora ambientou, no palco, o seu “Nos horizontes do mundo”, show do festejado álbum lançado em maio de 2005, ano em que celebrava 25 anos de carreira. Agora, em maio de 2007, o público recebe esse registro em dois formatos, como o 13° CD e o 2° DVD da artista, gravado ao vivo em agosto de 2006 no Teatro do Sesc Pinheiros, em São Paulo. Lançados pela gravadora Biscoito Fino, o CD traz 18 canções em 14 faixas e o DVD, feito em parceria com o Canal Brasil, apresenta o show completo, com 23 canções e um texto da escritora Adélia Prado, divididos 21 faixas. Nos extras, o DVD traz o vídeo-clipe de “Hoje” (Leila Pinheiro e Renato Russo), making of e galeria de fotos. “Nos horizontes do mundo ao vivo” é o primeiro projeto que leva a marca da Tacacá Music, selo da artista, aqui parceira dessas duas empresas.
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“Os ensaios para esse show aconteceram no meu estúdio, aos pés do Corcovado, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, com os galhos floridos das árvores entrando pela varanda. Entre livros, discos, flores, fotos e referências de toda uma vida, senti que era este o ambiente que queria ver reproduzido no palco - eu e meus músicos “em casa”. Gualter Pupo traduziu esse meu sonho e eu levo a minha sala de música na bagagem, para onde quer que eu vá, reproduzida em papelão colorido. Costurei o roteiro do show com Marisa, minha irmã caçula, a pessoa que certamente mais vezes me viu cantar e com quem divido minha música em níveis profundos de entendimento e cumplicidade. Gosto imensamente de sentir o show fluindo nas vinte e poucas músicas que canto como se fosse apenas uma, o que reitera a escolha acertada das canções e o momento em que elas acontecem no show. Completa o roteiro um trecho em prosa de uma de minhas poetas prediletas, Adélia Prado, e ele surge no show como uma canção, tão íntima me sinto das palavras dela.”

Desdobramento natural de um disco de pluralidade sonora, mas nascido essencialmente da voz e do piano de Leila, o show foi concebido para levar para a estrada as múltiplas sonoridades desse trabalho, singularizadas por ela e conjugadas em mais três instrumentos: teclado (David Feldman), contrabaixo (André Vasconcellos) e bateria (João Viana). Na tela, os momentos de cumplicidade entre Leila e seus músicos vão se revelando à medida que o repertório, como uma seqüência de cenas bem estruturadas, vai se desdobrando, costurado por falas espontâneas como as de uma anfitriã que recebe os amigos. “Nos horizontes do mundo ao vivo” é o retrato fiel do show, como captado, sem regravações, sem maquiagem de estúdio. O palco como ele é. “As músicas já gravadas no CD de estúdio, ganharam novo vigor, se iluminaram a caminho do palco, renovadas pelo talento destes três super jovens e já grandiosos músicos e criadores. Poucas vezes me senti tão visceralmente exposta e feliz no palco. Ao piano, nos incontáveis shows que fizemos, tocando e cantando com André, David e João, quis muitas vezes nunca mais sair dali, eternizada naquela sintonia rara, preciosa, poderosa. Viver a plenitude destes momentos é um dos sentidos da minha vida. Fico feliz de poder ter para sempre o registro desse encontro tão especial e importante na minha carreira. As cordas, os sopros, as percussões, os violões, em doses cuidadosamente programadas e estudadas estavam no palco conosco, através do “ProTools”, também sob a perfeccionista batuta do André Vasconcellos. Isso foi fundamental pra manter a riqueza dos arranjos originais. Acho que a missão foi muito bem realizada e fico contente por poder ouvir esses instrumentos em comunhão e perfeita sintonia comigo, com André, David e João, tocando ao vivo. Esse é o melhor sentido da tecnologia a serviço da criação.” No CD ao vivo, sete faixas são do disco de estúdio (“E muito mais”, “Gozos da alma”, “A vida que a gente leva”, “Nuestro juramento”, “Pela ciclovia”, “Renata Maria”, “Minha alma”). No DVD, são nove: além das sete estampadas no CD, há “Nos horizontes do mundo” e “Onde Deus possa me ouvir”. Algumas são inéditas na voz de Leila (“Escravo da alegria”, “Amor é outra liberdade”, “Essa mulher” – essas, presentes no CD e no DVD). Somente no DVD há o set solo, de quatro canções (“Brincar de viver”, “O amor nascer”, “Onde deus possa me ouvir”, “Serra do luar / Coração tranqüilo”), que traduz o momento da mais estreita ligação entre uma voz, seu instrumento e seu público.

A poesia de Paulinho da Viola cristaliza o movimento essencial do show – a voz e o piano – em sutil diálogo, na abertura do show. Espelho do artista quando artista. A partir daí, as luzes se acendem, ressaltando as cores vivas da música, do cenário, das palavras.

João Donato, em parceria com seu irmão, Lysias Ênio, são os escolhidos para abrir os trabalhos. “...E muito mais” vem com seu vibrante sotaque acubanado, com o trio, além de suporte de metais, em arranjo entusiasmado de Lincoln Olivetti, gravados em estúdio (levados para a estrada em bases de computador). “Gozos da alma”, canção de Francis Hime e Geraldo Carneiro, traz uma enlevada Leila, dialogando com o arranjo de cordas (também de Lincoln Olivetti, originais do disco de estúdio). “Escravo da alegria”, gema de Toquinho e Mutinho desliza atemporal da década de 70, ganha corpo e brilho, para ser a primeira inédita do repertório na voz de Leila.

Pela segunda vez em 10 anos Leila revisita “Catavento e girassol”, de Guinga e Aldir Blanc, que registrou em 1996 e agora apresenta com roupagem mais enxuta – e não menos tocante – dividindo o seu piano com o teclado de David Feldman. Uma década sem Renato Russo, completada em 2006, renova na emoção de Leila, “Tempo perdido”, que ela gravara em 1988, no álbum “Alma”. A força da música em versão ‘abluesada’ e mais vigorosa do que a anterior mostra a contemporaneidade da obra do líder da Legião Urbana.

Fatima Guedes, uma artesã de preciosidades, compôs “A vida que a gente leva” e, em 2004, presenteou Leila com essa delicada canção do cotidiano. “Nuestro Juramento”, também herdada do repertório do CD de estúdio, bolero do porto-riquenho Benito de Jesus, copiosamente difundido pelo equatoriano Julio Jaramillo, Leila veste como um comovente danzón (com arranjo de cordas escrito pelo cubano Demétrio Muñiz, diretor musical de Ibrahim Ferrer, do Buena Vista Social Club). “Pela Ciclovia” e “Renata Maria” são duas parcerias inaugurais (a primeira, de Marcos Valle e Jorge Vercilo e a segunda, o já histórico encontro de Ivan Lins e Chico Buarque), ambas com letras dignas de serem cinematografadas.

O amor e o extremo cuidado de Leila pela música se traduzem numa espécie de reverência. Mas, diferentemente da contemplação à distância, Leila se propõe instrumento dessa música, em sua lida diária rumo a novos acordes, harmonias inesperadas, letras interessantes. Ou então, rumo simplesmente a momentos de emoção, como é o caso de suas interpretações, também inéditas, delicadamente apaixonadas, de “Essa mulher” (de Joyce e Ana Terra, em amorosa homenagem a Elis Regina), de “Brincar de viver” (Guilherme Arantes e Jon Lucien) e de “O amor nascer” (Guilherme Arantes), essas duas integrando o set de voz e piano, como é o caso também de “Onde Deus possa me ouvir”, de Vander Lee, e da imperecível junção de “Serra do luar” com “Coração Tranqüilo”, de Walter Franco. “Só entendo a música, qualquer uma que eu queira cantar, quando me sento ao piano para tocá-la. Costumo dizer que preciso dormir com as canções, ser íntima delas, para entender como somos juntas. Toco piano desde os dez anos de idade e cantar me acompanhando se tornou praticamente um único movimento, tão natural, que parece ter sido desde sempre assim. Nos últimos dez anos, tenho estado nos mais diferentes palcos e contextos, sozinha com meu instrumento, certa de que também consigo dizer tudo o que quero e da forma que quero, neste formato, o mais simples e despojado possível. No show, toco piano em muitas músicas, junto com os três músicos, o que é igualmente uma experiência riquíssima que me desafia e estimula.” Com o trio, Leila divide uma seqüência que se tornou um dos pontos altos do show. Três raras canções de amor, que pulsam a alma de seus autores, também inéditas na sua voz, seguidas de um momento de exaltação à vida: “Amor é outra liberdade” (Sueli Costa e Abel Silva), “Você bem sabe” (Djavan e Nelson Motta), “Só louco” (Dorival Caymmi) e “Vitoriosa” (Ivan Lins e Vitor Martins).

A voz é sem ruído, limpa, forte, suave, contida, infinita em muitos momentos. Ainda que reconhecida como intérprete contexto musical mais suave, Leila talvez seja uma das pouquíssimas a exercer no Brasil atualmente, com tanta sabedoria, esse ensemble de técnica-vigor-emoção. É com essa força que ela relê, pela segunda vez em 21 anos, o samba “Verde”, de Eduardo Gudin e Costa Netto, que a projetara em 1985, no Festival dos Festivais. Mimeticamente, é capaz de energizar o canto na virulenta “Minha alma”, do Rappa e de Marcelo Yuka, e em “Mais uma vez” (Flavio Venturini e Renato Russo), não por acaso a escolhida para ser o abre-alas deste trabalho nas rádios.

O viés da realidade continua a ser cerzido nas palavras de Adélia Prado, escritora mineira e uma das poetas favoritas de Leila, trazida com um texto recente, do livro “Filandras”, para falar do Brasil, e do quanto vale a pena estar vivo e viver. Encerra o show “Isso aqui o que é”, de Ary Barroso e “Brasil pandeiro” (Assis Valente), sucesso dos Novos Baianos, uma referência na formação musical da cantora.

O DVD “Nos horizontes do mundo ao vivo” foi dirigido por Marcelo Santiago. A direção musical é de Leila Pinheiro e de André Vasconcellos, o roteiro de Leila e Marisa Pinheiro. Nos extras, há galeria de fotos, o vídeo-clipe de “Hoje” - parceria de Leila com Renato Russo, de 1993 -, além do making of - que traz entrevistas com Leila e sua equipe, além de takes da montagem do set de gravação.

por Flávia Souza Lima, abril 2007

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