Carioca, PRIMEIRO DISCO DE INÉDITAS DE CHICO BUARQUE DESDE 98, MARCA A ESTRÉIA DO COMPOSITOR NA GRAVADORA BISCOITO FINO
Ao ser perguntado do porquê de seu novo disco se chamar Carioca, Chico Buarque pode, como faz no DVD que vem junto com o CD (o documentário-making of Desconstrução, do diretor Bruno Natal), apelar para uma ironia tão ao seu feitio:
- É uma homenagem a São Paulo.
Mas nem tão ironia assim (também como é do seu feitio, o humor muitas vezes trazendo os significados profundos): Carioca era o apelido de Chico durante sua adolescência toda passada na São Paulo de seu pai.
Evidentemente que havia certa maldade adolescente nos colegas paulistas ao chamá-lo de Carioca: referiam-se ao sotaque, os xis e os erres carregados, a talvez um certo lirismo preguiçoso. Mas havia também, e certamente, uma inveja de quem passava todas as férias refestelado nas areias do Posto 2, ao lado das meninas da Copacabana de sua mãe, e ao som dos melhores sambas produzidos naquele Rio dos anos 50 (e que seriam tão importantes na formação do compositor Chico Buarque quanto os ótimos colégios que freqüentava durante o ano e a vasta biblioteca paulistana de seu pai, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda).
Chico, contudo, nem naquela época nem nunca mais posteriormente reivindicou qualquer carioquice.
- Não simpatizo muito com a idéia de carioquice ou paulistice, não sou chegado a bairrismos - diz Chico, que lembra não constar nem de sua genealogia em forma de música, Paratodos (no qual fala de pai paulista, avô pernambucano, bisavô mineiro, tataravô baiano...), o fato de ele ser carioca. - Só disse ser carioca uma vez, em Partido Alto, naquele verso ‘Eu sou do Rio de Janeiro’.
Na época em que ser carioca era tudo o que um brasileiro podia sonhar, Chico discretamente deixava seus amigos, parceiros e pais artísticos Tom Jobim e Vinicius de Moraes simbolizarem a tal carioquice.
Hoje, não. Ser carioca é difícil, por vezes sofrido, e descobrir o prazer dessa condição requer ainda mais esforço poético. Aí está, para além da ironia autobiográfica e do acaso geográfico de ter nascido no Rio, a razão primeira do título do novo CD, que marca a sua estréia na gravadora Biscoito Fino:
- O Rio está uma esculhambação, do futebol ao Aeroporto Tom Jobim, que para se chegar nele tem que se passar antes em São Paulo - afirma Chico. - E tem tantos problemas, da Barra da Tijuca ficando cada vez mais um misto de Orlando e São Paulo à violência. O Rio está relegado a um plano subalterno que vai se agravando. Então acho que chegou a hora de dizer (batendo no peito): ‘Sou carioca, sim. Com as belezas e as mazelas todas que isso significa’.
O disco é resultado desse atípico espírito carioca que se abateu sobre Chico.
- Não é uma idéia, é um sentimento que me acomete; o disco se chama Carioca como resposta, como clamor - revela o compositor.
Na prática, em pelo menos nove das 12 canções do CD o Rio de Janeiro está presente. A começar logo pela primeira faixa, a mais explícita de todas, o choro-canção Subúrbio, uma ode (anti-)lírica tão buarqueana àquele Rio ‘que não figura no mapa / No avesso da montanha’.
‘Lá não tem claro-escuro / A luz é dura / A chapa é quente / Que futuro tem / Aquela gente toda / Perdido em ti / Eu ando em roda / É pau, é pedra / É fim de linha / É lenha, é fogo, é foda’, diz Chico em seu passeio literário e musical pelas breubas suburbanas onde melhor se escondem as mazelas e as belezas do Rio.
- Com todos os problemas do Rio, é aqui, na Zona Sul ou no subúrbio, que se faz a música mais bonita do Brasil - afirma Chico, sem medo de parecer bairrista. - São Paulo, com todo o poder e dinheiro, não consegue fazer um décimo do que é feito no Rio. Isso deve querer dizer alguma coisa.
‘Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção / Traz as cabrochas e a roda de samba / Dança teu funk, o rock / Forró, pagode, reggae / Teu hip-hop / Fala na língua do rap / Desbanca a outra / A tal que abusa / De ser tão maravilhosa’, canta Chico à guisa de falar da riqueza musical dos subúrbios de sua cidade.
Na verdade, mais do que falar do Rio, Chico quer ouvir o que o Rio tem a dizer, por isso apela: ‘Fala, Maré / Fala, Madureira / Fala, Pavuna / Fala Inhaúma / Cordovil, Pilares / Espalha a tuz voz / Nos arredores / Carrega a tua cruz / E os teus tambores’.
Subúrbio foi a última canção composta por Chico para o CD, já no início de 2006. Foi a que revelou, para o compositor, o sentido do trabalho musical que estava fazendo depois da intensa viagem literária que empreendeu no romance Budapeste e que, como sempre que escreve livros, o afastou por completo da música.
- Aí percebi que o disco tinha uma estranha unidade. Apesar da variedade de temas, de levadas, o disco resultou uma coisa una - esclarece o compositor. - Quando compus Subúrbio, pensei que o disco podia se chamar Carioca. Foi isso que me fez gravar Leve, misto de bolero e samba canção que fiz com Carlinhos Vergueiro para o disco da filha dele (a cantora e apresentadora de tv Dora Vergueiro) mas que não ficou muito conhecido e fala muito do Rio. Foi aí que notei que faltava uma música para fechar o disco. Veio então Imagina, uma parceria com o Tom. Nada mais carioca do que o Tom.
Leve e Imagina revelam outro significado possível, levantado por este repórter, de que o título do CD se refere não somente à carioquice de Chico mas também a um certo espírito adolescente contido no antigo apelido. Ou seja, em algumas canções novas e mesmo nas regravações, Chico busca reminiscências, sentimentos do tempo em que era chamado de Carioca.
- Pensei nisso também, mas isso é secundário em relação ao título - diz Chico. - Mas é fato que em As Atrizes o tema são as reminiscências da minha adolescência em São Paulo, vendo as atrizes de filmes franceses que apareciam nuas.
‘Sem nem olhar a minha cara / Tomavam banho / Na minha frente / Para sair com outro cara’, canta Chico em ‘As atrizes’, um alumbramento em forma de canção, necessariamente adolescente.
Como adolescente é a levíssima Leve, bolero/samba-canção tão carioca, no qual a paisagem do Rio e sua brisa invadem um lindo e triste primeiro namoro que se desfaz: ‘Não me leve a mal / Me leve à toa pela última vez / A um quisoque, ao planetário / Ao cais do porto, ao Paço / O meu coração, meu coração / Meu coração parece que perde um pedaço / Mas não me leve a sério / Passou este verão / Outros passarão / Eu passo’.
Em Imagina, uma valsa francesa de Tom Jobim nitidamente inspirada em Ravel, a adolescência aparece de forma ainda mais sutil e quase inconsciente. A começar pelo fato de que embora Chico tenha escrito a letra em 1983, para que ela fizesse parte do score do filme musical Para Viver um Grande Amor, de Miguel Faria Jr., a música foi a primeiríssima composta por Tom Jobim, ainda jovenzíssimo, em 1947. Em princípio, foi composta como um exercício da aula de piano. Mas ao deparar-se com aquela maravilha, a professora de piano aconselhou, ou melhor, vaticinou: o aluno não seria um pianista, um concertista, mas sim compositor. Quase disse que seria o maior de todos os compositores.
Ou seja, tão adolescente, Imagina serviu para Tom Jobim quase que como um teste vocacional. E Chico inconscientemente fez letra igualmente adolescente - ‘Imagina / Imgina / Hoje à noite / A gente se perder’ - um jovem casal com medo de que o fim da noite representasse o fim do encantamento do amor.
Para gravar pela primeira vez esse dueto originalmente registrado por Olívia Byington e Djavan, Chico foi mais uma vez ousado: convidou para cantar com ele a jovem paulista Mônica Salmaso, provavelmente a melhor cantora brasileira da sua geração, admiradíssima no meio, já que com três discos gravados, mas ainda pouco conhecida do grande público. Cantora, aliás, que adora a obra de Chico, especialmente as suas parcerias com Tom no filme Para Viver um Grande Amor, de onde pretende regravar todas as músicas - já fez isso com ‘A Violeira, com Sinhazinha e, agora, a convite do próprio autor, tem a honra de cantar Imagina.
- A Mônica é um tesouro a ser mais descoberto - avaliza Chico, que trouxe outro jovem, o pianista Daniel Jobim (neto de Tom e seu herdeiro musical), para tocar na faixa. - E acho graça que se misture na última música do disco o sotaque paulista da Mônica com o meu, carioca.
O Rio e a música do Rio estão de fato presentes em quase todas as canções de Carioca. Está de forma oblíqua, no imaginário do compositor numa canção como Sempre, composta para o novo filme de Cacá Diegues, O Maior Amor do Mundo.
- Tem uma levada meio anos 50, meio americana no Sempre. Mas para mim é como se fosse uma canção americana ouvida no Metro Copacabana - revela Chico, que faz questão de ressaltar que não se trata de um disco saudosista, mas uma elaboração musical feita a partir de como a música se deu e se dá a partir do Rio de Janeiro.
A tal ‘levada anos 50, americana’ é fruto da intimidade musical de Chico com o seu produtor e arranjador já quase há 20 anos, Luiz Cláudio Ramos. O violonista e arranjador não apenas ‘traduz’ em orquestra as idéias musicais contidas nas composições de Chico, como faz com que o compositor Chico fique cada vez mais elaborado e exigente consigo mesmo.
- Hoje dedico mais tempo à harmonização das canções do que há 20 anos. Não é por nada, é por prazer mesmo. O mesmo prazer que sinto no aprimoramento literário, quando estou escrevendo um livro, repito na criação do esqueleto harmônico das canções, hoje mais elaboradas, certamente - diz Chico. - E como eu e o Luiz Cláudio tocamos o mesmo instrumento, o violão, fica mais fácil o diálogo com ele. Sobretudo porque a elaboração não deve tornar a música pedante, complicada.
Em Renata Maria, primeira parceria com Ivan Lins feita por encomenda da cantora Leila Pinheiro, o Rio é tão personagem quanto a linda mulher que sai do mar e provoca delírios poéticos no autor: ‘Ela era ela, era ela no centro da tela daquela manhã / Tudo que não era ela se desvaneceu / Cristo, montanhas, florestas, acácias, ipês’, começa a cantar Chico sua profusão de imagens para descrever o assombro da realidade diante da ‘fulgurante visão’ que ‘não se produz duas vezes no mesmo lugar’, apenas naquele momento, naquela praia carioca.
Em Bolero Blues, outra primeira parceria, desta vez com o baixista Jorge Helder (que tem sua primeira música a ganhar letra), Chico mistura mais uma vez um amor adolescente com a paisagem carioca. ‘Quando eu ainda estava moço / Algum pressentimento / Me trazia volta e meia / Por aqui / Talvez à espera da garota / Que naquele tempo / Andava longe, muito longe / De existir’... ‘É bem capaz de num lamento / Acudir ao meu olhar mendigo / Mas aquela ingrata corre / E a Barão da Torre e a Vinicius de Moraes / São de repente estranhas ruas’, completa o compositor, citando não apenas a rua de Ipanema que leva o nome do antigo parceiro Vinicius como um verso da própria obra do poeta (na imagem do ‘olhar mendigo’).
O intrincado e belo choro de Jorge Helder soa tão carioca quanto Dura na Queda, extrovertido samba de gafieira de Chico lançado por Elza Soares. A personagem aqui não é uma lírica garota que corre pelas ruas de Ipanema, mas uma daquelas malucas de carnaval, meio mendiga, meio foliã. Não por acaso, o primeiro título de Chico para a música foi Ela Desatinou 2, referindo-se a um velho samba seu, dos anos 60.
O Rio das mazelas aparece explicitamente em Ode aos Ratos, grandioso baião feito em 2001 com Edu Lobo para o musical Cambaio (de João e Adriana Falcão), a descrição de um submundo que, em princípio, poderia ser de qualquer grande cidade brasileira: ‘Rato de rua / Aborígene do lodo / Fuça gelada / Couraça de sabão / Quase risonho / Profanador de tumba / Sobrevivente à chacina e à lei do cão’, canta o autor, não podendo ser mais explícito sobre o triste personagem que já aparece em outras canções suas como O Meu Guri ou Brejo da Cruz. Chico acarioca ainda mais a canção ao lhe acrescentar uma Embolada, na verdade um rap-baião que ambienta o tal ‘rato’ explicitamente na Cidade Maravilhosa: ‘Rato / Rato que rói a roupa / Que rói a rapa do rei do morro’.
- Aquele é um marginal de qualquer cidade grande. O baião, aliás, tem muito a ver com as classes menos favorecidas das periferias das grandes cidades - pontua Chico. - Mas a entrada da embolada, fazendo o contraponto ao baião, o acariocou. Ela tem o suíngue do Rio, fala em morro...
É o mesmo Rio a que se refere a faixa Outros Sonhos, um misto de xote e fox-trote que não apenas retrata sonhos tão do carioca de hoje (‘Belo e sereno era o som / Que lá no morro se ouvia’) como, de forma polêmica, propõe soluções ainda que oníricas para os problemas cariocas atuais, notadamente a violência provocada pelo tráfico de drogas: ‘De noite raiava o sol / Que todo mundo aplaudia / Maconha só se comprava / Na tabacaria / Drogas na drogaria’.
- Sou pela descriminalização das drogas, sempre fui – defende o autor. - É polêmico, não é fácil fazer, mas o problema é que ninguém fala nisso. Talvez não interesse aos países ricos, onde o problema é apenas de saúde pública, não é um grave problema social como aqui. Não vejo repressão policial nem propaganda capaz de resolver o problema. Quantas vítimas fazem as drogas e quantas vítimas faz o tráfico de drogas é o que se deve botar na balança.
Na talvez mais remota referência do disco, em Outros Sonhos Chico recupera uma velha canção em espanhol que cantarolava seu pai. Na verdade, uma linda e singela quadrinha anônima, que Chico traduz para o português: ‘Sonhei que o fogo gelou / Sonhei que a neve fervia / E por sonhar o impossível, ai / Sonhei que tu me querias’.
- Era uma música chilena dos anos 10, que meu pai cantava muito. Um bocado de gente gravou. Aí soube que o Gardel também tinha gravado. Mas era um tango, uma outra música sobre os mesmos versos. Na verdade, os versos são anônimos e precedem a música - conta Chico, que em Carioca, mais do que em outros discos seus, diverte-se com citações secretas.
Como o Vinicius do ‘olhar mendigo da poesia’ (em Bolero Blues); o Baudelaire de ‘Ó meu semelhante, filho de Deus, meu irmão’ (em Ode aos Ratos); a citação melódica de Um Americano em Paris, de Gershwin, em Dura na Queda; Montaigne na canção Porque Era Ela, Porque Era Eu (uma frase que qualquer estudante de liceu francês sabe de cor, mas desconhecida fora do mundo francofônico); o clarinete que imita o Rapsodhy in Blue, na introdução de As Atrizes, o clima de bossa nova de Ela Faz Cinema...
Na busca de seu imaginário carioca, Chico chegou a Carioca, seu apelido de adolescência em São Paulo. Encontrou aí a chave para falar da sua cidade com o espírito juvenil e especulativo típico da idade em que ganhou tal apelido. E, assim, como quem não quer nada, falando de sua cidade, de seu imaginário, conseguir mais uma vez pintar um retrato simbólico e sentimental de nós, os seus ouvintes que, como as do poeta que vê Renata Maria saindo do mar, têm congeladas na boca as palavras que íamos falar.
Texto de Hugo Sukman
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