sexta-feira, 29 de junho de 2007

Mariza em meu sangue português

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Mariza, nova embaixadora do fado no Brasil
27/06 - 17:17
Marco Tomazzoni

Os brasileiros vão poder conferir nesta semana um dos maiores nomes da música portuguesa atual. Shows nos teatros mais prestigiados do mundo todo, 600 mil cópias vendidas de seus três álbuns, Mariza reintroduziu o fado na mídia e virou porta-bandeira da cultura de seu país. A cantora se apresenta no Rio de Janeiro (28, Vivo Rio), São Paulo (29, Tom Brasil) e Brasília (30, só para convidados), mostrando o repertório do disco Concerto em Lisboa, gravado ao vivo, com regência do carioca Jaques Morelenbaum.

Longe de ser uma frase dita da boca para fora, a missão de divulgar a nação lusa é oficial: aos 34 anos, Mariza é embaixadora da indicação do fado a patrimônio da humanidade pela Unesco e também embaixadora do turismo português. Por isso, ela luta para preservar o passado do estilo musical, colaborando, por exemplo, para a manutenção e enriquecimento do acervo do Museu do Fado, instalado no bairro lisboeta de Alfama.

“Estamos preparando um dossiê para a Unesco para preservar o fado tradicional”, afirmou Mariza, em entrevista ao iG Música. “Sem saber a nossa história, não é possível passar para o futuro”, disse, preocupada em apresentar às novas gerações a riqueza do fado, construída desde o século XIX. “Me sinto muito feliz por ser um veículo de divulgação da cultura portuguesa. Poder cantar para fazer isso, então, melhor ainda.”

Nascida em Moçambique, mas desde muito pequena morando em Portugal, Mariza contou que cresceu no bairro da Mouraria, berço do fado tradicional, e começou a cantar aos 5 anos. O fato de ter amadurecido seu estilo em meio à “velha guarda” dos fadistas, no entanto, não quer dizer que ela seja defensora do puritanismo ou algo do gênero, tanto é que não raro surgem afirmações de que a cantora mostraria nuances do jazz e até de bossa-nova em suas músicas.


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Amália Rodrigues

Tais referências, porém, são descartadas de pronto por ela. “Está na cabeça de quem ouve, da orientação musical de cada um”, explicou. Para Mariza, o fato de se afastar levemente de cânones do gênero – como Amália Rodrigues, por exemplo, apesar dela ser apontada como sua sucessora – se deve mais ao fato de sua mãe ser africana, pela bagagem resultante de suas viagens pelo mundo e pela forma com que encara o fado.

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Chico Buarque

“Tenho uma maneira muito sincera de lidar com a música”, sugeriu. “Sei muito bem o que é o fado, não é só tristeza. Tem todos os sentimentos da vida – saudade, alegria, amor. E eu canto e tento mostrar aquilo que vi e senti, há uma forma muito pessoal de lidar com isso.”

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Gilberto Gil

Depois de passar pelo Brasil, Mariza tem um show marcado no início de julho em Lisboa, ao lado de Gilberto Gil, e no dia seguinte é uma das atrações do evento “Sete Maravilhas”, que divulgará as novas maravilhas do mundo, com shows de Jennifer Lopez e outros artistas. Em breve, a cantora também pode ser vista nos cinemas, no filme “Fados”, de Carlos Saura, que terá depoimentos de conterrâneos como Carlos do Carmo e até de brasileiros, caso de Chico Buarque e Caetano Veloso.http://www.concertieproduzioni.it/artists/CaetanoVeloso/images/86_g.jpg

Os shows em São Paulo, Rio e Brasília terão basicamente as mesmas faixas do álbum ao vivo e contarão com a presença de Morelenbaum. “Teremos o prazer de contar com ele, uma pessoa que tem sido muito presente em minha vida, e que raramente consegue estar no palco conosco.” Apesar das apresentações estarem bastante delineadas, ela não descartou surpresas: “Quem me conhece, sabe: comigo, tudo é possível”.

Mariza, fenômeno da world music, mostra seu fado em SP


Cantora exótica renova o gênero tradicional português com sua leveza e alegria

Lauro Lisboa Garcia, do Estadão


Reuters



Relação com o Brasil

Esta não é a primeira vez que Mariza se envolve com um músico brasileiro. "Desde a infância conheço muito bem música brasileira. Tive o prazer de conhecer Caetano Veloso, de estar com Chico Buarque num filme de Carlos Saura sobre o fado, de cantar com Alcione durante um show dela no Coliseu de Lisboa", diz.

Alcione

Mariza chegou a viver um tempo no País durante os anos 90, mas passou despercebida. "Ninguém sabia quem eu era, achavam que eu era baiana", diverte-se. "Fazia shows em cruzeiros pela costa nordestina e essa experiência me fez crescer como cantora." Ela também vinha fazendo pesquisas para escrever um livro contando a história do fado, mas com a repercussão internacional de seu trabalho o projeto teve de ser adiado. "Minha vida agora anda muito agitada", diz. Em novembro ela lança outro CD.

Embora sem a Sinfonieta de Lisboa, além de Morelenbaum a cantora vem acompanhada de Luis Guerreiro (guitarra portuguesa), Antonio Neto (guitarra), Vasco Sousa (baixo), Antonio Barbosa (violino), Ricardo Mateus (viola) e João Pedro Ruela (percussão). No repertório há clássicos como Barco Negro (David Mourão-Ferreira/Caco Velho-Piratini), que ao lado de Recusa (Mário Rainho/José Magala) é um dos números mais intensos do show, poemas musicados de Fernando Pessoa e Florbela Espanca, temas de grandes autores portugueses como Rui Veloso e José Afonso.

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Florbela Espanca

Harmonizando antigos e novos fados, Mariza é muito cuidadosa na escolha de melodias e letras que interpreta. Procura sobretudo cantar o amor aberto de forma sensual.


"Trabalho com muita gente, faço muita pesquisa poética e dou aos compositores para trabalhar comigo. Tenho encontrado poetas com quem me identifico. Dá muito trabalho pesquisar, mas tem a ver com aquilo que sinto. A mensagem tem de ser clara. As palavras têm de nos beijar."

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