September 23rd, 2003
Chega a fita pelas mãos do Hermínio, claro, e ouço quatro vezes de enfiada. Só paro porque tenho que ensaiar umas coisas com o Tom Jobim. Inevitável pensar no “Canção do Amor Demais”. Quantas vezes terei ouvido aquele disco? Volto do Tom e torno a ouvir a fita. O Violão do Rafael, que sabedoria! Impensável pensar no violão de João Gilberto. Mas Elizeth e violões sempre se deram bem demais. Também eu quero colar meu bilhete no espelho da Elizeth: canta, canta, canta mais! Porque Elizeth é a nossa cantora mais amada. Voz de mãe, e mãe de todas as cantoras do Brasil.
As palavras acima são de Chico Buarque, registradas na contracapa do LP Todo o sentimento. Segundo o Hermínio Bello de Carvalho no texto do relançamento deste disco na caixa A faxineira das canções, pela Biscoito Fino, esse texto foi “uma das últimas grandes alegrias da Divina”, pelo fato do Chico não ser muito de escrever para os outros, principalmente notas sobre discos. Entretanto, pela sensação contida neste, dá para perceber que alegria maior foi justamente a dele ao ouvir o disco.
Comigo, a sensação de ouvi-lo foi a de recapitular minhas descobertas dos primeiros sons da música brasileira. Por volta do início dos 90, quando recém me iniciava MPB e tudo era novidade para mim, um dos artistas que primeiro me impressionaram e me influenciaram, em função da minha aproximação inicial com o violão, foi Raphael Rabello, através daquele disco Todos os tons, onde ele toca apenas com músicas de Tom Jobim. Portanto, tudo o que saía na mídia a seu respeito era de máximo interesse.
Um certo dia, ainda em Ribeirão Preto, começou a pegar em UHF o canal 33 com a TVE. Fiquei sabendo que lá passava um programa comandado pelo Hermínio, um concorrente carioca do paulista Ensaio, do Fernando Faro. No dia e horário em que o programa seria exibido, troco o canal meio atrasado e dou de cara com a Elizeth, acompanhada pelo Raphael Rabello ao violão solando a introdução de Todo sentimento, de Chico Buarque e Cristóvão Bastos. Era uma imagem que hipnotizava a expressão corporal e a emoção carregada na voz respeitável daquela senhora, já visivelmente debilitada pelo avanço da idade, mas de uma grandeza fora do comum, capaz de sensibilizar de imediato quem estivesse exposto a ela (depois da Divina, a única cantora que me fez sentir o mesmo foi a cubana Omara Portuondo, que na minha opinião, possui timbre e expressão na hora de cantar similares aos da Elizeth, guardadas as devidas proporções musicais e geográficas. Arrisco-me até a dizer: Omara Portuondo é a Elizeth Cardoso de Cuba!)
Ao apreciar o disco por completo e finalmente inteirando-me de seu histórico, posso listar minhas faixas favoritas: a comovente Camarim, parceria de Cartola e Herminio cuja letra Chico Buarque estava se referindo no que escreveu, uma vez que ela diz: “….Releio bilhetes pregados no espelho / Me pedem que jamais eu deixe de cantar…”. A seguir vem no embalo o samba Refém da solidão, que se inicia com a introdução do virtuoso Raphael e prossegue com a agilidade surpreendente de Elizeth alinhada à levada empolgante do violão.
Na época eu estava aficcionado na interpretação do Chico para sua Todo o sentimento acompanhado pelo piano de Cristóvão Bastos ao vivo na gravação do show Francisco e jamais pensara que alguém poderia regravar aquela letra. A dramaticidade que Elizeth proporciona à canção surpreende de tal modo que é impossível não ouvir atento à profundidade da poesia do Chico e ficar atônito com a perfeição da mesma.
Não poderia faltar aqui novamente mais uma bela interpretação de Doce de côco, cujo arranjo de Raphael remete o ouvinte aos tempos do violonista na Camerata Carioca. Já na Modinha, de Tom e Vinícius, canção lançada pela própria Elizeth, reconhece-se a primeira versão do arranjo solo para a canção que Raphael Rabello aproveitaria para seu disco só sobre Tom Jobim, além de outra gravação onde ele acompanha Ney Matogrosso.
Outra informação supreendente a respeito do disco é que ele foi gravado ao vivo, sem retoques de estúdio. É o que se percebe mesmo ao prestar bastante atenção. Não é à toa que esse trabalho é uma ponto alto na discografia de ambos os artistas. Nas palavras do Hermínio, “é Elizeth cantando e o Raphael tocando ao vivo mesmo, um com o coração pousado no coração do outro.”
Publicado em: Discografia
Veja também:
Fonte:http://www.sovacodecobra.com.br/index.php?s=Todo+o+sentimento+-+Elizeth+Cardoso+e+Raphael+Rabello+-+Columbia%2FSony+Music+-+1989&searchbutton=procurar
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