| | Elisa Lucinda | | |
|
|
|
marie claire.104.novembro.1999
Elisa Lucinda
A poesia em pessoa
Atriz e poeta, Ela se diz "poetriz": dá voz aos versos que faz, no palco e em CD. seu livro "Eu te Amo e suas Estréias", cheio de imagens femininas e libidinosas, é um show.
Por Rosane Queiroz. Foto: Nana Moraes
Espelho Seu "Quero ser minha para poder ser sua Quero nunca mais partir Pra longe de mim. Vem, Alivia, Adianta, Adivinha Quero ser sua pra poder ser minha..." (do livro "Eu te Amo e suas Estréias") |
Ela não declama, diz poesia. Mas diz de um jeito que não deixa ninguém indiferente. Menestrel moderna, a poeta capixaba Elisa Lucinda, 41 anos, leva seus versos para palco e CD. "Eu acordo a palavra, boto ela em pé, transformo em gesto", diz a mulata de voz rouca e olhos verdes fulminantes -os mesmos que hipnotizaram o Prêmio Nobel de Literatura José Saramago. Depois de assisti-la, o escritor declarou: "Se depender de Elisa, as relações culturais entre Brasil e Portugal vão bem...".
O romancista chileno Antonio Skármeta, autor de "O Carteiro e o Poeta", também foi fisgado. Em setembro, gravou com ela uma entrevista para um programa do canal People & Arts. Lançado em maio, "Eu Te Amo e Suas Estréias" (Record, 240 págs., R$ 26), seu quarto livro, já caminha para a segunda edição. O espetáculo "O Semelhante", com as poesias do livro anterior, ultrapassou 900 apresentações e virou CD, com participações dos atores Zezé Polessa e Miguel Falabella. Segue em cartaz no Bar Satchmo, no Rio.
Autora de rimas simples, de tão sofisticadas, Elisa faz poesia sobre paixão, política ou prisão de ventre. Mas a tônica é "o amor, o feminino, e o homem que partilha disso. Acho animadíssimo ser mulher. Se fosse homem, ia ficar curiosa. Como pode sangrar e estar aí ótima? Mulher é uma mistura de valentia, sensibilidade e parabolicismo." Sua parabólica capta versos como os de "Lilith Balangandã" ("Ponho o lenço do pescoço na cabeça/molho os cabelos com calma/uma mulher é uma espécie de alma com enfeite..."). "Minha essência de fêmea é livre. Não me lembro de nenhum processo de libertação. Meu poema é de quem sai de casa, transa, bota minissaia..."
Cabeça raspada, sutiã à vista no decote do vestido, Elisa tira as sandálias e se joga no sofá. Acha chique ser capixaba. "É um Estado lindo, um segredo para o país." Herdou o humanismo do pai, advogado, e o lirismo da mãe, professora de ioga. Com os dois, aprendeu lições de auto-estima negra. "Se alguém falava em alisar cabelo, meu pai dizia: 'seu cabelo é lindo...'." No primário, recitava nas festas e sonhava em ser atriz. Para tapear a fome de estrelato da menina, a mãe a levou para um curso de declamação. Só deixou as aulas aos 17, para fazer jornalismo.
Formada em 1982, trabalhou como repórter e apresentadora de TV em Vitória. Uma noite, foi entrevistar Elba Ramalho, então atriz. "Chorei a peça inteira, de inveja. Decidi que não queria dar a notícia, mas ser a notícia." A decisão coincidiu com o fim do casamento com o pai de seu filho -Juliano, de 17 anos. Separada, embarcou para o Rio, levando na mala alguns poemas e seu sonho original: ser atriz. Durante uma aula de teatro na Casa de Artes de Laranjeiras, disse um poema seu: "Réveillon com Vitor Rodolfo". A poetriz despertou: o texto virou sucesso em eventos de poesia, e logo ela se apresentava em bares. O primeiro livro foi feito artesanalmente em 92. "Aviso da Lua que Menstrua" tinha prefácio de Grande Otelo: "Seja bem-vinda, negra Lucinda...". Na época, Elisa sobrevivia com trabalhos em teatro, cinema e TV.
A guinada veio com o livro "Sósias dos Sonhos", lançado no teatro Rival. Em 94, lançou "O Semelhante", reeditado pela Record em 98. Elisa realizou sua utopia: "É a poesia que paga minhas contas", diz. Na sua opinião, poesia tem que servir para alguma coisa. "É do departamento de esclarecimento da alma." Ela exorcisa a banalidade transformando vida em verso. "Tudo no cotidiano me belisca." O poema "Eu Te Amo e Suas Estréias" nasceu de um sonho. "Dizer 'eu te amo' é sempre uma estréia. Falam que homem não gosta de dizer 'eu te amo'. "Não é que não gosta, não sabe. Acha que 'eu te amo' não tem prazo de validade. A gente pergunta: 'Cê me ama?', e ele: 'Já não disse no ano passado?'. Mas o 'eu te amo' que se diz na cama não é mesmo do almoço.
Só gasta se falar da mesma maneira." No próximo ano, encarna Elza Soares no musical "Crioulas" e participa do filme "As Alegres Comadres de Shakespeare", dirigido por Leila Hipólito. E ainda ensaia o show com os poemas do livro mais recente, com direção de Miguel Falabella. "Quero espalhar a poesia popular brasileira." "Eu Te Amo..." é dedicado ao Zix. "Zé Inácio Xavier, meu homem, meu amor", diz, toda derretida, sobre o psicanalista gaúcho que é seu marido há cinco anos. "A roupa de príncipe que eu fiz coube direitinho nele." Seu maior medo é ficar com o coração vazio. "Quero viver amando, até o último dia da minha vida."
Ouça Elisa declamar poemas extraídos do CD "O Semelhante", da gravadora Rob Digital, também presentes no livro de mesmo nome, da Editora Record:
Reconstituição
Safena
Espelho seu
Para ouvir os poemas de Elisa Lucinda, você precisa do plug-in Real Player.
Para saber mais sobre Elisa Lucinda: www.webzip.com.br/elisalucinda
Maquiagem: Inez Barreiro/Colar: Claudia Duarte/Foto still: Stock Photos
Nenhum comentário:
Postar um comentário